O Parque das Ruínas de Pinheiral, antiga sede da Fazenda São José dos Pinheiros — espaço que no século XIX aprisionou mais de três mil pessoas escravizadas —, tornou-se o epicentro de um movimento de ressignificação histórica, formação e celebração da vida. No último sábado (25 de julho de 2026), o local recebeu o 4º Encontro Formativo em Letramento Racial, promovido pelo Projeto Aquilomba HUB em parceria com a Associação das Comunidades Jongueiras do Vale do Café - RJ.
O evento ocorreu de forma integrada à programação oficial do 5º Encontro de Jongos do Vale do Café, reunindo cerca de 450 lideranças quilombolas provenientes de 18 comunidades e quilombos dos estados do Rio de Janeiro e de São Paulo. A convergência entre o encontro formativo e a festividade tradicional transformou o território em uma arena de escuta qualificada, formação antirracista e incidência política.
Articulado a partir do tema “Letramento Racial, Memória, Patrimônio Cultural e Políticas Públicas: caminhos para a reparação histórica e a transformação dos territórios”, o encontro estruturou suas reflexões em três eixos centrais: Reparação, Memória e Políticas Públicas de Igualdade.
As mesas temáticas promoveram o diálogo direto entre representantes dos movimentos sociais, pesquisadores acadêmicos, mestres da cultura popular e gestores do poder público. A metodologia garantiu espaço para a participação popular ativa, permitindo que as demandas locais e o conhecimento comunitário orientassem os debates sobre a garantia de direitos e o combate ao racismo estrutural."A proposta reconhece o território como espaço de produção de conhecimento, memória, cultura e resistência.
O enfrentamento ao racismo estrutural exige processos permanentes de formação, escuta qualificada e construção coletiva."
Um dos momentos de maior emoção foi a homenagem prestada pelos 70 anos de vida e 50 de militância da Mestra Fatinha do Jongo de Pinheiral. Guardiã incansável da tradição jongueira no Sul Fluminense, Fatinha foi agraciada recentemente com o título de Notório Saber pela Universidade Federal Fluminense (UFF), reconhecendo formalmente uma trajetória que transformou o Jongo em ferramenta de educação e articulação comunitária.
A celebração da sua vida reafirma o compromisso pedagógico do encontro em reconhecer que a memória negra não reside apenas em arquivos e livros, mas na corporeidade, nos cantos e na sabedoria transmitida pelos mestres da cultura popular.
Reconhecido pelo IPHAN como Patrimônio Cultural do Brasil e frequentemente chamado de "pai do samba", o jongo é uma dança de roda de matriz angolana trazida ao Brasil pelos povos bantu. A celebração do evento coincidiu com o Dia Estadual do Jongo e o Dia de Sant’Ana — matriarca sincretizada com as pretas-velhas na tradição local.
A programação estendeu-se com o toque dos tambores de 18 grupos jongueiros — vindos de locais como Morro da Serrinha, Quilombo São José, Quissamã, Guaratinguetá e Campinas —, a Bênção da Fogueira e um grande encerramento ao som da sambista Margareth Mendes, a Negona do Axé.
Além do impacto sociocultural, a organização pontuou que a realização do encontro aquece a economia do Vale do Café, movimentando a rede hoteleira e o comércio local através do fomento ao turismo étnico e cultural, articulado pelo Circuito Afro do Vale do Café.
O 4º Encontro Formativo integra uma agenda mais ampla que prevê ao todo 10 Encontros Formativos e 2 Seminários Nacionais, consolidando uma rede de agentes multiplicadores de educação antirracista por todo o país.
Ao encerramento das atividades, ficou evidente que as reflexões produzidas em Pinheiral continuarão ressoando. Como sintetiza a Metodologia Aquilomba: aquilombar é reconhecer memórias, fortalecer comunidades e construir futuros com justiça racial.
Realização: Projeto Aquilomba HUB
Parceria e Organização Local: Jongo de Pinheiral, Associação das Comunidades Jongueiras do Vale do Café, Rede de Jongo do Vale do Café, CREASF, Instituto Floresta e Rede de Patrimônio Imaterial do Estado do RJ.
Apoio Institucional: Prefeitura Municipal de Pinheiral, Ministério da Igualdade Racial, Ministério da Justiça (Pronasci) e Museu Vassouras.